É preciso envolver crianças e adolescentes nas decisões sobre retorno às aulas

Ana Maria Gentil, professora do curso de Pedagogia da FAEP, ressalta a importância da interação família-escola na experiência diferenciada da rotina escolar

Fevereiro: período de retorno às aulas. Em muitas famílias esse momento implica em uma série de desafios tanto para os pais, quanto para as crianças e adolescentes, já que muitos estudantes encontram dificuldades na retomada das aprendizagens presentes na rotina escolar. Isso porque, nas férias, muitos acabam realizando ações mais livremente, vivenciando uma rotina diferente daquela exigida na volta às aulas.

Diante disso, pais e educadores devem estar conscientes da importância de envolver estudantes/filhos no processo de retorno à rotina escolar, de maneira que eles próprios participem das decisões dessa nova fase. 

Para a pedagoga e psicopedagoga Ana Maria Gentil, professora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação Paulistana (FAEP), os maiores desafios das famílias estão relacionados à reflexão conjunta sobre o papel da escola e a relação entre as pessoas envolvidas na educação escolar e na educação fora das instituições educativas. Segundo a psicopedagoga, trata-se de desafios como: pensar nessa relação, a partir das idades das crianças e adolescentes envolvidos no processo; planejar o retorno dos filhos, interagindo com a escola nessa trajetória; refletir junto aos filhos sobre a tendência das pessoas de consumirem materiais escolares e outros objetos de forma exagerada; conversar com crianças e adolescentes sobre o papel escolar na formação das pessoas e a complementaridade da família nesse processo; e compreender que os períodos de férias e lazer não estão separados dos tempos e espaços de prazer e descoberta vivenciados no ambiente escolar.

Em meio aos desafios, surge outra questão desafiadora tanto para familiares quanto para educadores: o uso de celular por crianças e adolescentes. Mas, de acordo com Ana Gentil, o celular e outros aparelhos tecnológicos não podem ser ignorados pela família e pela escola, pois constituem um importante elemento da conquista cultural humana atual. É preciso, no entanto, desenvolver formas diversificadas de lazer, busca de conhecimento e relação com o outro. “Esses dispositivos não podem ser os únicos objetos de conexão com o mundo. Cabe à família e à instituição escolar, de forma conjunta, equilibrar esta relação, que tem sido bastante intensa nas últimas gerações.”

Quanto àqueles que não foram apresentados a este recurso tecnológico é preciso introduzi-lo na rotina, de acordo com as necessidades de utilização. A escola pode usá-lo em diferentes trabalhos, incluindo a exploração do celular como instrumento digital. Já para as crianças e os adolescentes que estão conectadas desde cedo, a pedagoga afirma que instituição escolar e família podem organizar experiências destinadas a proporcionar objetivos prazerosos fora do ambiente virtual.

Outro aspecto relevante na retomada da rotina escolar é o período do sono. De acordo com Ana Gentil, ele deve fazer parte dos hábitos das crianças menores, de maneira que as exigências dos corpos e mentes infantis sejam sempre respeitadas. Já as crianças maiores e os adolescentes podem organizar o período de sono antes do retorno às aulas. Todavia, a educadora alerta que o mais importante para os estudantes é atribuírem sentido às atividades realizadas, a fim de que possam planejar a própria rotina.

Ana Gentil oferece cinco dicas práticas de como os pais podem ajudar os filhos na volta da rotina escolar. A primeira e principal dica é o estabelecimento de relações permanentes e trabalhos complementares entre as famílias e a escola, antes e durante o período letivo. A segunda dica, também importante, é envolver as crianças e adolescentes no planejamento da volta às aulas e da rotina escolar e familiar.

Outra possibilidade apontada pela professora é a realização de atividades culturais nas férias, também vivenciadas na escola: visita à museus, aquários, exposições. A quarta dica, relacionada à anterior, envolve uma conversa sobre como a volta às aulas não exclui momentos de atividades vivenciadas nas férias, como: acampamentos e passeios escolares, visitas a lugares que tenham, concomitantemente, experiências com a natureza e com a história do local.

Por fim, de acordo com a professora entrevistada e a educadora Débora Checchinato é preciso pensar no retorno à rotina de formas diferentes de acordo com as idades. Para as famílias de crianças até três anos, o ideal é ajustar a rotina que terão na escola dois ou três dias antes do início das atividades escolares, a fim de que corpo e psiquismo se reconectem ao ritmo da instituição (horário de sono, refeições e alternância entre atividades e descanso). Essas famílias devem permanecer atentas quanto a possíveis chamadas da escola durante alguns dias, principalmente no início das aulas, pois é direito das crianças pequenas adaptarem-se aos hábitos escolares processualmente, sem pressa e com a presença dos pais.

Para as famílias de crianças maiores de 3 anos, torna-se necessário preparar mochilas, materiais, roupas/ uniformes e coisas afins com os pequenos, conversando com eles sobre o retorno de forma clara e, inclusive, visitando as dependências da escola. Não se deve fazer os preparativos para as aulas sem a participação dos filhos, sem a opinião da infância sobre todos os movimentos preparatórios.

Quanto aos adolescentes e jovens, as famílias podem ajudar dialogando antes, durante e depois do início das aulas. Elas precisam demonstrar a confiança nos filhos, reconhecendo, explicitamente, a possibilidade de eles planejarem e retornarem à rotina escolar de forma mais independente, evitando ações que demonstrem excessiva tutela. As educadoras também destacam que as famílias e a escola devem agir de forma complementar e permanecerem em constante interlocução.

Diante da importância da conexão entre o ambiente escolar e familiar, a pedagoga ressalta que a tarefa da instituição escolar é propor ações específicas voltadas às diferentes idades, realizando um processo formativo, na perspectiva da humanização. Todos precisam saber que as rotinas devem ser vivenciadas e planejadas pelas crianças, adolescentes, jovens, educadores da escola e familiares. Por fim, não há um tempo certo para compreender a rotina escolar. Tudo dependerá da interação e das ações complementares entre família e escola e do respeito às diferenças. 

Por Mariana Mascarenhas

Assessora de Imprensa da FAEP

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