O Sagrado, a Fé, o Espanto e a Vida

  • Categoria :Blog - Teologia
  • Data :5 / agosto / 2020

O Sagrado, a Fé, o Espanto e a Vida

Por  Me. Mizael Pinto de Souza, professor do curso de graduação em Teologia da FAEP

Na Grécia, entre os anos de 385 a 323 a. C., viveu um filósofo de nome Aristóteles. Esse grande pensador defendeu a tese de que todo movimento do universo dependia de um primeiro motor imóvel, totalmente isento de matéria, e que ele considerava divino.

Mais de dois milênios e trezentos anos depois, é muito provável que Beto Guedes, quando compôs “Amor de Índio” dizendo que “tudo o que move é sagrado”, não estivesse pensando na teoria de Aristóteles. Contudo, parece-me que, tanto o filósofo grego como o cantor e compositor brasileiro tentaram expressar algo mais intuitivo: existe um mistério por detrás do movimento. Movimento indica vida. Palavra simples, mas que guarda grandes possibilidades. Por exemplo, podemos nos perguntar: de onde ela vem? Como começou?

Ainda que se assumam pressupostos da teoria da evolução, tais como a hipótese de Oparin e Haldane, para os quais a vida teria vindo da multiplicação e estabilidade de moléculas proteicas, chamadas coacervados, formadas, por seu turno, pela ação de raios ultravioletas, isso de modo nenhum é a palavra final acerca desse mistério. Temos nessa teoria apenas as condições especiais que teriam permitido o surgimento da vida. Isso não parece ser suficiente para o espírito. A teoria responde às condições, processos de formação, mas não à pergunta pelo sentido. Não precisamos negar a hipótese evolucionista, mas qual a chance de algo tão maravilhoso como a geração da vida possa acontecer novamente, e em condições idênticas à primitiva?

Podemos ir mais longe e nos perguntar o porquê de tais coisas anteriores à geração da vida na terra existirem? Na verdade, esse ponto foi colocado pelo filósofo Martin Heidegger na famosa indagação: “porque existem as coisas e não o nada”?

Os cientistas e muitos outros filósofos disseram que essa pergunta não é científica e, nem mesmo faz sentido. Entretanto, se não faz sentido, por que nós a fazemos? Mais que isso, é a pergunta que parece se encaixar naquilo que Aristóteles denominou como “espanto” diante das coisas. Pode ser que não façamos tal questionamento. Normal, mas podemos questionar até que ponto podemos alcançar todas as nossas possibilidades quando deixamos de fazer essas perguntas e nos encantar com o mundo?

Os seres humanos, diante desse mistério da existência, propuseram explicações, tanto na religião, como na filosofia ou mesmo nas ciências. Ao que parece, todas têm sua “verdade”, seu direito de existência. Falam da mesma coisa, mas de pontos de vista distintos.

Nosso ponto de vista aqui, sem negar os outros, é o da teologia. Da teologia na medida em que tenta falar daquilo que é a base, o fundamento de todas as coisas com base no que diz a religião. Contudo não deixamos de levar em consideração o que nos diz a filosofia que também procura o fundamento de todas as coisas, mas sem, necessariamente, levar em conta as tradições religiosas.

Mas não sou apenas teólogo, também me vejo como filósofo. Nesse sentido vejo como, tanto a teologia quanto a filosofia mostram o espanto diante daquilo que aqui nos aparece como “misterioso”: o fato de que sem movimento não há vida.

O termo animal vem de alma, “anima” em latim, que indicava algo que fazia parte do homem, mas não era confundido com seu corpo. A evidência disso estava em que um cadáver humano ou animal, poderia ter corpo, mas não tinha necessariamente vida, em especial quando deixava de respirar.

Aí surge algo interessante, para muitas tradições religiosas, e mesmo filosóficas, o ar foi tido como divino, porque se movia, porque parecia estar ligado à vida. Os hebreus diziam que seu deus soprava a vida pela sua Ruah, o termo grego para isso era pneuma, enquanto o latino, spiritus. Todos eles tentam imitar o som do vento, e acabaram sendo termos que expressaram a essência do divino, tanto nas religiões como na teologia.

Hoje em dia a ciência ocidental diz que o vento não tem vida. Mas poderíamos questionar: o que é vida? A vida está limitada ao conceito científico e biológico da vida animal? Por que não podemos considerar o ar, e até mesmo o universo como sendo vivos?

Nosso olhar está embotado pelo mecanicismo e racionalismo da ciência ocidental. Vejam bem, não estou dizendo que essa ciência é errada ou ruim, mas apenas que tem o seu ponto de vista e é limitada. E nesta hipótese não estou sozinho, mas acompanhado de grandes filósofos da ciência como, por exemplo, Karl Popper e Thomas Kuhn.

Mas, voltando ao movimento, acreditamos que a letra de Beto Guedes, faz alguma referência mais explicita quando diz que o sagrado “remove as montanhas”. É quase impossível cantar esse trecho e não pensar na famosa passagem dos evangelhos que fala sobre a fé que lança as montanhas no mar.

Esse episódio é narrado de três formas diferentes nos três evangelhos chamados sinóticos, sendo que no evangelho de Lucas a “montanha” é substituída pela “amoreira”. Existem várias teorias para tentar explicar esse fato. De qualquer modo, me parece que em todas elas existe uma lição central. Que o poder da fé ou da fidelidade é capaz de fazer coisas que nos parecem impossíveis.

Não pretendo negar aqui que o poder da fé possa remover montanhas literais, mas é quase óbvio que o evangelho não está querendo ser literal, até mesmo porque Jesus ensinava por parábolas. Assim, a montanha ou a amoreira representam a impossibilidade que o cotidiano nos impõe de fazer ou ver coisas diferentes.

Sim, se observamos o movimento do mundo, a sua cotidianidade, percebemos que ela acaba nos fazendo encarar as coisas como um bloco e faz com que não consigamos mais enxergar e sentir os detalhes da vida, das coisas pequenas que podem ser grandes. Assim como a semente de mostarda é tão pequena, mas contém em si a capacidade de fazer algo grande, gerar uma árvore muito maior que a própria semente.

Para mim a fé é a capacidade de enxergar o mistério por detrás da existência, das pequenas coisas. É se espantar, se surpreender com a vida que está por detrás do cotidiano que pretende fazer dela apenas movimento vazio. Sim! Imagine a complexidade por detrás da existência de uma simples formiga?

Essa capacidade de enxergar a beleza, a vida por detrás da morte e do caos é o que as religiões chamam de fé. A fé nos faz ir além do cotidiano. Procurar fazer mais do que se conformar com a existência do jeito que ela está, nos faz ir além da falta de sentido que está aí. A falta de sentido é real, mas a fé também o é. Como dizia o teólogo ecumênico Hans Küng, “o sentido é um desafio à falta de sentido”. Sim, a fé remove as montanhas do caos, dos obstáculos, das desilusões, da desesperança. Nossa fé é algo sagrado, ainda que acreditemos ou não em deuses.

Tudo o que move é sagrado.

 

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