A Sabedoria de Não Saber e… Não Ser.

  • Categoria :Blog - Teologia
  • Data :19 / agosto / 2020

A Sabedoria de Não Saber e… Não Ser.

Por Mizael Pinto de Souza, Mestre em Filosofia e Professor do Curso de Teologia da FAEP

“Sei que nada sei”

Essa frase de Sócrates talvez seja uma das mais conhecidas da filosofia, competindo em popularidade com o “penso, logo existo” de Descartes. Muitos intérpretes têm tentado desvendar o sentido dessa afirmação socrática, daí terem surgido muitas teorias e debates sobre ela. Sob a influência do cristianismo o “sei que nada sei” também foi lido na chave de uma espécie de humildade epistemológica.

Seja como for, a maioria dos intérpretes concorda que Sócrates não está sendo humilde, ou pelo menos não humilde no sentido cristão. O reconhecimento do não saber é uma forma de recusar a concepção tradicional de sabedoria como transmissão de conhecimentos. No lugar do sábio, aquele que possuiria a sabedoria, ou seja, aquele que tem muitos conhecimentos, surge a figura do filósofo, aquele que ama a sabedoria ao invés de possuí-la. O filósofo não acha que tem a sabedoria por ter muitos conhecimentos, na verdade ele desconfia de todas as coisas, sempre está questionando os saberes que lhe são repassados e buscando dentro de si, através da indagação, o conhecimento verdadeiro.

Essa é a interpretação, portanto, de qual teria sido o sentido do que Sócrates quis dizer de acordo com a exegese filosófica.

Mas não fui movido a escrever esse texto para simplesmente dizer o que Sócrates falou. Minha intenção é outra. Realmente pretendo me apropriar da fala de Sócrates, e justamente no contexto da “humildade cristã”, ou seja, ouso afirmar que, mesmo que Sócrates não tenha pensado em humildade no sentido cristão, o seu pensamento pode ser interpretado a partir dessa categoria.

Ora, em uma sociedade onde se admira quem possui grandes conhecimentos, quem ousaria dizer que reconhecer que não é dono do saber, que nada sabe, não seria uma atitude de humildade no sentido de declaração de insuficiência? Assim, o “sei que nada sei” pode ser relido também como uma espécie de postura diante da vida, uma postura que reconhece as limitações do conhecimento. Mas quero dar um passo a mais. Esse passo estaria na constatação de que “sei que nada sei” nos leva a sustentar um “sei que nada sou”, pois, como podemos pensar que o nosso conhecimento é algo separado de nós mesmos? Principalmente quando muitas pessoas acham que, por terem bastante conhecimentos ou serem inteligentes são melhores que outras?

Passamos então de uma epistemologia esvaziada (sei que nada sei) para uma ontologia esvaziada (sei que nada sou). E quem conseguiria sustentar a leveza do ser (para lembrar Kundera)?

Quem estaria disposto a reconhecer que nada somos? Que nosso ser não tem peso? Que nossa densidade ontológica ou existencial é muito fraca? Isso não seria uma filosofia da negação ou da morte como a denominou Nietzsche?

Por mais que tenha tentado me aproximar da filosofia nietzscheana que busca a afirmação de si mesmo como Wille zur Macht, ou seja, “vontade de potência”, ela é cansativa. Mais que cansativa, no fundo, me parece uma grande ilusão na medida em que, quando pensamos em quantas bobagens fazemos na vida, quantos erros cometemos; quando pensamos em nossos sofrimentos, nossas ilusões, etc., pensamos que toda essa capacidade é tão fulgaz… Quantos egos já foram esmagados pela realidade da vida… inclusive o meu? “Deus” também me deu um espinho na carne afim de não ter que me vangloriar…

É claro que um nietzscheno poderia dizer que a afirmação de potência pode acontecer justamente dentro de nossas falhas e limitações. Mas que importa isso diante do ponto que estou tentando mostrar? Quem quiser que se afirme, podemos ser muita coisa, mas ainda continuaremos sendo pó, fraqueza, barro.

Vejo algumas pessoas muito exaltadas pelo seu saber ou pelo que consideram como conquista na vida e fico pensando: no que tal saber ou poder acrescenta o ser a uma mosca? Será que a vontade de potência me daria a capacidade de atravessar o oceano ainda que o queira muito? Os oceanos de possibilidades de conquista…

Vou me aproximando do final desse texto. Mas antes disso, preciso fazer alguns esclarecimentos, pois ele, longe de ser uma defesa da postura de inatividade diante do mundo ou de exaltação do não saber, é justamente o contrário disso.

Sócrates substituiu o sábio pelo filósofo e o filósofo pode ser visto como alguém que possui uma postura de humildade diante do saber, mas que jamais abre mão de buscar esse saber, ele sempre está investigando e reconhecendo as limitações de seu conhecimento e percurso. Dentro da tradição ocidental, a postura de reconhecer as limitações e insuficiências foram encaradas como uma sabedoria, o socratismo cristão é a afirmação da insuficiência, de não ser algo, pois estamos em construção e somos extremamente limitados, ainda que cheios de possibilidades de existência.

Paradoxalmente, afirmar o “não saber” e o “não ser”, longe de ser uma negação é a constatação de nossas potencialidades e aberturas para o infinito, para nos construirmos a cada dia com nossos erros e acertos, sendo mais generosos com nossas falhas e nossa realidade já que não somos algo acabado.

Antes de terminar, não deixe de conhecer nosso curso de Graduação em Teologia

 

FAEP – Faculdade de Educação Paulistana – A 1ª Faculdade da Parada de Taipas