A conta da Educação Financeira, no vermelho!

  • Categoria :Destaques
  • Data :8 / setembro / 2021

A conta da Educação Financeira, no vermelho!

Por Thamy Pereira dos Santos, Aluna da primeira turma de Pós Graduação em Educação Financeira/Investimentos e Empreendedorismo da AGC/FAEP

A educação financeira tornou-se um assunto de extrema relevância e debate na atualidade, tomando corpo no cenário pandêmico. Adultos não educados financeiramente desde a infância e em situação de vulnerabilidade são os que mais sofrem com as crises do país, sejam elas políticas, sanitárias ou de qualquer outra natureza. Caminhando de maneira tímida pelos bancos das escolas de Ensino Básico, a temática conta com os esforços dos professores que se envolvem com pesquisas nessa área. 

Além de abordar conhecimentos sobre economia doméstica, consumo, planejamento, investimentos e organização familiar, a Educação Financeira também objetiva munir o cidadão com informações idôneas para que ele seja capaz de tomar decisões mais assertivas no seu cotidiano. Esta área de conhecimento abrange desde processos comportamentais à compreensão de cálculos e uso de ferramentas que colaboram e facilitam a concretização de objetivos individuais ou da família, além de contribuir para uma vida sustentável, com mais liberdade e tranquilidade.

A partir de breve análise da realidade do meu entorno profissional, de levantamento de pontos da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), de artigos da área de Educação Matemática, dos Cadernos do BCB (Banco Central do Brasil), da ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira) e da colaboração de professores amigos que dividem tratativas sobre educação em escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro, busco detalhar o cenário da Educação Financeira, nas escolas públicas, sob minha percepção.

Atuo, hoje, como Professora de Matemática, de escolas públicas, no Ensino Fundamental e Médio Técnico, em duas escolas do Campo, inseridas em região rural, do Estado do Rio de Janeiro. 

Durante os meus quinze anos de exercício do magistério, atuando nas Secretarias Estadual e Municipal de Educação, com Ensino Básico, em inúmeras unidades de ensino, nunca tive acesso a qualquer tipo de Formação em Educação Financeira, oferecida pelas referidas Secretarias de Educação, para desenvolver estrategicamente esse conhecimento durante as aulas de Matemática Financeira, junto aos jovens. 

Tal como eu, muitos professores colegas de disciplina, ou de outras áreas do conhecimento, também não foram capacitados para esse fim. 

Para atestar essa carência na Formação de professores, nessa área, entrevistei alguns amigos de profissão e, 86% deles relataram nunca terem recebido qualquer tipo de formação em Educação Financeira, a partir da secretaria de educação onde atuam. 

Conversando em particular com uma profissional que realizou uma formação divulgada pela Seeduc, ela relatou que participou do curso incentivada pelo diretor da escola, no ano de 2012, através da Secretaria de Educação do Estado, pelo Programa Educação Financeira nas Escolas, promovido pela ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira). 

Porém, nove anos se passaram e a maioria desses professores entrevistados ainda não foi contemplada com essa iniciativa ou qualquer outra semelhante. 

Todos os meus amigos de profissão que responderam ao questionário, inclusive àqueles que participaram da formação fomentada pela ENEF, acreditam que os professores de um modo geral, não estão preparados para tratar Educação Financeira como tema transversal durante suas aulas.

Contrastando a esse contexto de carência de Formações em Educação Financeira pelas Secretarias públicas de Ensino, professores buscam aperfeiçoamento por iniciativa própria, em áreas de afinidade, se especializando em diversos conhecimentos que irão auxiliá-los em suas práticas pedagógicas. 

Durante esses anos frequentando diversas salas de professores, presenciei propagandas de diversos cursos pagos e tivemos acesso a inúmeras instituições superiores públicas que abriam seleções para especializações em educação (pós graduações, mestrados, doutorados) que, geralmente, são da esfera da psicopedagogia, da gestão escolar, das pedagogias diferenciadas, da educação matemática, entre muitas outras. 

Cito isso porque não me recordo de presenciar um edital público destinado a Especialização de Professores, específico para área de Educação Financeira, – exceto um Aperfeiçoamento para professores, de 30 horas oferecido pela renomada Fundação CECIERJ, em formato de curso de curta duração, que estimula as discussões em fóruns e as leituras de estudos e artigos em torno desse assunto. 

Prova disso, são os 28% dos profissionais que entrevistei, que relataram ter tido acesso a propagandas, anúncios ou a editais de especialização, aperfeiçoamento ou Pós Graduação em Educação Financeira, mas, a maioria de iniciativa Privada. 

Diante disso, onde está a atuação das Secretarias de Educação públicas em promover, fomentar, incentivar, divulgar e formar professores interessados nessa área tão relevante para a sociedade?

Para refletir sobre tais questionamentos, foi de imensa valia, um dos artigos sugeridos para leitura, pelo coordenador do curso, da fundação CECIERJ, citado acima, intitulado: “Cenários sobre a Educação Financeira Escolar: entrelaçamentos entre a pesquisa, o currículo e a sala de aula de Matemática.”

Nesse artigo, os autores, analisam alguns cenários e, em um deles, citam Kistemann Jr., que traz como desafio “o papel da formação de professores que ensinam matemática, além de uma reflexão sobre a necessidade de mudança do paradigma da Matemática Financeira para uma Educação Financeira Escolar (EFE)” (PESSOA; JUNIOR; KISTEMANN JR., 2018, p.6). 

Esse é o ponto onde queria chegar: De que maneira, professores não especialistas, endividados, usuários do crédito rotativo do cartão, do cheque especial, do consignado e/ou que gastam tudo que ganham, irão conduzir crianças, jovens e/ou outros adultos às “mudanças de comportamento” que “geralmente, são conquistadas em longo prazo, por meio de educação efetiva”? (Caderno ENEF, p.95).

Professores precisam estar formados. Devidamente formados. Precisam praticar Educação Financeira em suas vidas, nesse cenário de extrema perda salarial, de arrocho das condições de trabalho e de cortes do crescimento profissional dentro da carreira pública. Esse movimento de Educação Financeira, se faz necessário primeiro nas vidas dos docentes, para que eles (nós) mantendo uma efetiva mudança comportamental na prática de nossas vidas, consigamos trabalhar juros simples e compostos, nas grades de Matemática Financeira de maneira a ir além das situações problema tradicionais trazidas pelos livros didáticos, por exemplo. 

Digo isso, por experiência própria. Quantas aulas sobre porcentagem, funções exponenciais já lecionei e que até cinco anos atrás, não praticava qualquer abordagem financeira nesse sentido em sala de aula. Ou quando levantava algum questionamento, ele se limitava ao assunto ‘consumismo’ (que também faz parte da discussão, mas não se restringe a isso). 

Nesse contexto, a BNCC, traz na habilidade EF07MA02, por exemplo, a importância de contextualizar a porcentagem como estratégia pessoal, quando anota:  

Resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens, como os que lidam com acréscimos e decréscimos simples, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora, no contexto de educação financeira (BRASIL, 2017, p. 305)

Nós, professores, em geral, não levantamos discussão crítica sobre mercado financeiro, para aprofundarmos essas estratégias de uso do percentual em favor do próprio aluno, nessa habilidade apontada pela BNCC, por exemplo. Breve parênteses, para apontar que a nova BNCC já menciona inúmeras vezes a Educação Financeira em seu texto. 

Em geral, para trabalharmos porcentagens, abordamos descontos em compras simples do dia a dia. Mas, quantos de nós estaríamos habilitados a levantar assuntos mais complexos, como por exemplo, levar o aluno a calcular e decidir qual pode ser o melhor produto de Renda Fixa, da prateleira de uma corretora, em determinado momento, entre uma LCI sem desconto de IR pagando 80% do CDI ou um CDB com determinado desconto de IR para aquele mesmo período, pagando 140% do CDI?

Em contrapartida, estamos (nós como sociedade) carentes do básico! Essa carência chega ao ponto que, promover discussões, mesmo que de maneira introdutória, é um movimento extremamente necessário para a Educação.

Diante do exposto, apontaria três soluções dentro da minha limitada análise, nesse momento da minha vida pessoal e profissional. 

Primeiro: Promover a Educação Financeira para a vida pessoal dos professores (de todas as disciplinas), sem fadá-los à uma formação que se finalize na aplicabilidade de sala de aula. Uma formação para a vida pessoal dos professores, para analisar seus comportamentos enquanto consumidores, seus hábitos relacionados ao crédito, seus planejamentos cotidianos, projetos para uma aposentadoria confortável. Nesse contexto, todos nós capacitados financeiramente para sermos agentes das nossas próprias tomadas de decisão, seríamos, consequentemente, capazes de levantar a temática Educação Financeira durante as aulas. Cada professor, especialista em sua área de conhecimento, teria autonomia, vivência e qualificação para contextualizar a tratativa em sua sala de aula.

Segundo: Formar professores de Matemática, para atuarem nas escolas públicas, efetivamente nas áreas de Matemática Financeira, Números, Funções ou dentro de qualquer conteúdo que esse professor, já formado, vislumbre possibilidade de levantar discussões no chão de sua sala de aula, no contexto da realidade dos seus alunos. 

E a terceira solução se encontra na gestão de políticas públicas eficientes que fomentem essas formações e ampliem as discussões sobre Educação Financeira já que, o próprio Banco Central do Brasil (BCB) aponta logo na página introdutória do seu caderno que “a educação financeira é o meio de prover conhecimentos e informações sobre comportamentos básicos que contribuam para melhorar a qualidade de vida das pessoas e de sua comunidade” (Banco Central do Brasil, 2013, p.9). 

Essas práticas seriam, ao meu ver, as que garantiriam um horizonte de solo firme para formar cidadãos mais críticos e independentes. Iniciando a implementação de Educação Financeira sistemática desde a Educação Infantil à conclusão do ciclo formativo do jovem, no Ensino Médio. Transferindo ricos conhecimentos para a conta da nossa sociedade e colaborando para retirar esse saldo de desequilíbrio financeiro do vermelho. 

Finalizo essa breve análise, com a fala de uma das minhas alunas de Matemática Financeira, do 1º Ano do Ensino Médio do Curso Técnico em Administração, da escola onde atuo, na minha aula sobre reconhecimento identitário e educação financeira:

Todos os conteúdos propostos e apresentados até agora foram de grande importância e me fizeram refletir sobre a necessidade de se planejar, pensar e agir em relação a nossa vida financeira, para evitar gastos e despesas desnecessárias. Percebo agora que tudo está entrelaçado, por isso é essencial nos preparar, desde já, analisar nossa situação atual e estabelecer onde queremos chegar, quais são as metas, sonhos e desejos que almejamos alcançar.

Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Educação é a Base: Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 2017.
  • Brasil/ENEF (2011). Estratégia nacional de educação financeira – Plano Diretor da ENEF. Disponível em < Brasil/ENEF (2011). Estratégia nacional de educação financeira – Plano Diretor da ENEF > Acessado em 15/08/2021.
  • PESSOA, C. A. S.; JUNIOR, I. M.; KISTEMANN JR., M. A.; Cenários sobre a Educação Financeira Escolar: entrelaçamentos entre a pesquisa, o currículo e a sala de aula de Matemática. Revista de Educação Matemática e Tecnologia liberoamericana, 2018.
  • Banco Central do Brasil, Caderno de Educação Financeira – Gestão de Finanças Pessoais. Brasília: BCB, 2013.